Pescaria e preservação

Piraíba de 2,25m e cerca de150kg pescada por Breno Perillo (ao centro), que precisou da ajuda dos parceiros Dudé (à esquerda) e Lindomar (piloteiro, à direita)

Piraíba de 2,25m e cerca de150kg pescada por Breno Perillo (ao centro), que precisou da ajuda dos parceiros Dudé (à esquerda) e Lindomar (piloteiro, à direita)

Recebi, recentemente por um e-mail de um amigo, a foto (lado) de uma grande Piraíba capturada e solta no rio Araguaia. Comecei a me lembrar de várias capturas relatadas por amigos e clientes nos últimos anos, tornando evidente que o rio Araguaia vem se mostrando muito produtivo e que as restrições impostas pela Agência Ambiental de Goiás, há mais ou menos dez anos, foram totalmente acertadas. Para quem não se lembra, o estado de Goiás tomou naquela época uma postura extremamente corajosa,  proibindo que se matasse peixes.  Ficaram liberados apenas a pesca de subsistência  e o abate de peixes a serem consumidos nos locais de pesca, ou seja: nada de levar peixes para casa.

Algumas espécies que estavam em risco de extinção (Piraíbas, Pirararas, Pirarucus) tiveram totalmente proibido o seu abate, tornando-se assim obrigatória sua soltura. O que pareceu ser o fim da pesca no rio Araguaia tornou-se em pouco tempo sua salvação É claro que, no início essa atitude, foi mal recebida por todos que tinham a pesca como seu sustento, principalmente as pessoas ligadas ao turismo de pesca. Não foram poucos os donos de pousadas que viram seus negócios ameaçados, mas passado o susto inicial em pouco tempo o rio recuperou sua piscosidade. Os pescadores, aqueles que realmente amam a pesca, voltaram para o Araguaia, e aqueles que somente se importam em levar peixes foram procurar outras paragens, o que no fim foi bom para todos, principalmente para o Araguaia, que descansou dessa segunda turma.

Essa atitude também foi adotada pelo estado do Tocantins, colocando restrições ao abate de espécies e redução de cotas de pescado. Outros estados também têm tomado posturas bastante acertadas, criando áreas de proteção como nos rios Teles Pires e São Benedito, que no passado foram vítimas dos garimpos, pesca predatória e outras barbáries, mas que hoje são referência na pesca esportiva e exemplos de como o turismo de pesca pode gerar melhoras para diversos segmentos. A pesca esportiva gera empregos e consumo, melhorando as condições naqueles locais onde as estruturas são implantadas.

Em algumas regiões tradicionalmente ligadas ao turismo de pesca, como os pólos turísticos dos rios Cuiabá e Paraguai, notamos o rápido declínio dos estoques pesqueiros. Cada vez menos procuradas pelos pescadores esportivos, em razão da pouca produtividade, essas regiões parecem estar fechando os olhos para o problema. O turismo de pesca em certas regiões como Corumbá tem um papel importantíssimo para o município e para o estado, e se fazem necessárias atitudes urgentes e imediatas para salvar toda a estrutura montada ao longo dos anos e que corre sérios riscos, se não houver um consenso entre empresários, governo, ONGs  e população. Em um primeiro momento, atitudes como proibição de abate de pescado ou redução de cotas fazem-se necessárias para a recomposição dos estoques pesqueiros, medida que a médio prazo trará melhoras para o turismo de pesca nas regiões dos rios Cuiabá e Paraguai.

Após serem pescados, os peixes são soltos.

Após serem pescados, os peixes são soltos.

No caso de Minas Gerais, a situação é ainda mais grave: o estado ainda não desenvolveu um programa destinado ao fomento da pesca esportiva como um gerador de empregos, renda e consumo, apesar de todo o potencial hídrico de Minas. O turismo da pesca só existe por conta de uns poucos empresários que lutam  para manter seus negócios a duras penas. O nosso Rio São Francisco e seus principais afluentes, que têm um grande potencial para pesca esportiva, sofrem com pesca predatória por parte de profissionais e amadores, além de poluição industrial e esgotos, mas ainda não foram objeto de estudo sobre a viabilidade de implantação de estruturas de pesca. Não foram feitas prospecções de pesca em regiões que poderiam transformar-se a médio prazo em pólos de pesca esportiva, gerando melhorias econômicas e sociais e ainda contribuindo para o desenvolvimento sustentável dessas regiões. Em Minas estão também os rios Grande e Paranaíba, formadores do rio Paraná, além de diversos lagos formados por usinas hidrelétricas e outras sub-bacias de grande importância para pesca, e por abrigarem espécies introduzidas e endêmicas. A vermelha no rio Mucuri, e o pirá no rio São Francisco (sem mencionar o dourado e o surubim, entre outros) são exemplos desta biodiversidade e deste potencial para o qual os governos municipais e estadual têm fechado os olhos, e por isso  nosso estado tem muito pouca representatividade no cenário da pesca esportiva nacional.

Os modelos de exploração sustentável do turismo de pesca estão implantados em diversas regiões do país e são experiências de sucesso em que o homem, em harmonia e com respeito à natureza, consegue viver dignamente. Cabe ao governo e à sociedade civil se unirem com o propósito de fazer com que estas experiências se repitam em nosso estado e que se convertam em melhorias ambientais, sociais e econômicas para todos os que venham a se envolver e comprometer com a pesca esportiva.

Autor: Ailton Salgado

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